Andando em círculos

Um pouco sobre tudo e muito sobre nada!

Sobre o autor

Eric é casado com Carol e pai do João Paulo. Músico, católico, fã de automobilismo e empresário. Trabalha em um portal de anúncio de veículos,

Luis Fernando Veríssimo tem um defeito. Grave. É colorado. Mas ainda assim, é meu escritor preferido, confirmando aquela propaganda do Novo Fiesta, que diz que a gente se contenta com o que vem. É verdade. Eu considero o melhor escritor do Brasil um colorado. Isso é algo inadmissível. Mas, aceitei. Agora pronto.

Um texto dele que foi publicado na Zero Hora.

Encontros e desencontros (6)

- Viena não é maravilhosa?

- Você é maravilhosa.

- Não beije meu pescoço aqui. Está cheio de gente. Coma a sua torta.

- Prefiro você.

- “Nein”! Tome seu chocolate. Comporte-se.

- Como posso me comportar, com seu pescoço tão perto dos meus lábios?

- Olhe, uma valsa! Vamos dançar. Traga a torta.

- Valsas, valsas, valsas. Não tocam outra coisa nesta maldita cidade?

- Mas esta é a terra de Strauss.

- Prefiro Wagner.

- E não só Strauss. Esta é a terra de Mahler. E de Schönberg.

- Quem?

- Schönberg. Ele está fazendo experiências maravilhosas com a música.

- Pra você tudo é maravilhoso.

- É porque Viena é maravilhosa.

- Seu pescoço é maravilhoso.

- Pare! Estão nos olhando.

- Também, não sei por que você insiste em vir para estes cafés de calçada. Estão sempre cheios.

- Toda Viena vem aqui. Olhe, lá está Karl Kraus!

- Quem?

- Vai dizer que não conhece o Karl Kraus?

- Aposto que ele também é maravilhoso.

- Ele é mais do que maravilhoso. É o espírito de Viena em pessoa!

- Sei.

- Coma a sua torta.

- Estou cheio de torta, de valsa e de chocolate. Vamos para o meu quarto.

- Já disse que não. E largue o meu joelho.

- Eu sei. Você acha que é melhor do que eu. Você…

- Olhe quem está passando! É Loos, o arquiteto!

- Dane-se Loos, o arquiteto. Danem-se todos eles. Vamos para o meu quarto.

- Isso é demais. Aqui estamos nós, numa tarde de verão, no centro da cidade mais maravilhosa do mundo, a cidade de Musil, de Hofmannsthal, de Schnitzler, de Wittgenstein, de Klimt, de Schiele, e você só pensa em ir para o seu quarto imundo. Aspire este ar. Sinta o perfume das vinhas do Wienervald.

- O cheiro que eu sinto é de decomposição.

- Que bobagem. O que está acontecendo em Viena é uma revolução no espírito humano. Nós vamos mudar a Europa. Nós, em Viena! Estamos no limiar de uma era como nunca houve igual. De paz, de prosperidade, de criatividade, de alegria de viver. Uma era…maravilhosa! E você desdenha tudo isso.

- Está bem. Esquece.

- Você precisa mudar de atitude.

- Está bem, está bem.

- Você fez o que eu pedi, fez?

- Não.

- Está vendo? Disse que faria qualquer coisa por mim, mas eu pedi para você ir ver o Dr. Freud, para o seu próprio bem, e você não foi. E não foi fácil marcar uma hora.

- Cheguei a ir até a porta, mas não entrei. Sei lá.

- Ele está fazendo coisas miraculosas. Mudaria você. E você não foi. Depois, ainda diz que me ama.

- Está bem. Marque outra hora que…

- Ouça! É o Danúbio Azul! Não, esta nós temos que dançar. Se você não dançar comigo, eu danço com o Kokoschka.

- Com quem?

- O Kokoschka. Um estudante de arte que eu conheço. Está sentado ali.

- Então vá dançar com o Kokoschka!

- Você ficou magoado?

- Vá. Ele também deve ser maravilhoso. Enquanto eu sou um pintorzinho de nada.

- Adolf…

- Vá, vá. Mas um dia vocês vão se arrepender. Ainda vão ouvir falar de mim.

Vocês todos ainda vão ouvir falar de mim!

Um comentário para “ Luis Fernando Veríssimo ”

  1. Hahahahahaha!!!
    Infelizmente, ainda não estamos salvos do fim do mundo.
    Infelizmente, ainda existem mulheres que complicam tudo quando queremos apenas simplificar - hehehe.

    Camilo

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