Luis Fernando Veríssimo tem um defeito. Grave. É colorado. Mas ainda assim, é meu escritor preferido, confirmando aquela propaganda do Novo Fiesta, que diz que a gente se contenta com o que vem. É verdade. Eu considero o melhor escritor do Brasil um colorado. Isso é algo inadmissível. Mas, aceitei. Agora pronto.
Um texto dele que foi publicado na Zero Hora.
Encontros e desencontros (6)
- Viena não é maravilhosa?
- Você é maravilhosa.
- Não beije meu pescoço aqui. Está cheio de gente. Coma a sua torta.
- Prefiro você.
- “Nein”! Tome seu chocolate. Comporte-se.
- Como posso me comportar, com seu pescoço tão perto dos meus lábios?
- Olhe, uma valsa! Vamos dançar. Traga a torta.
- Valsas, valsas, valsas. Não tocam outra coisa nesta maldita cidade?
- Mas esta é a terra de Strauss.
- Prefiro Wagner.
- E não só Strauss. Esta é a terra de Mahler. E de Schönberg.
- Quem?
- Schönberg. Ele está fazendo experiências maravilhosas com a música.
- Pra você tudo é maravilhoso.
- É porque Viena é maravilhosa.
- Seu pescoço é maravilhoso.
- Pare! Estão nos olhando.
- Também, não sei por que você insiste em vir para estes cafés de calçada. Estão sempre cheios.
- Toda Viena vem aqui. Olhe, lá está Karl Kraus!
- Quem?
- Vai dizer que não conhece o Karl Kraus?
- Aposto que ele também é maravilhoso.
- Ele é mais do que maravilhoso. É o espírito de Viena em pessoa!
- Sei.
- Coma a sua torta.
- Estou cheio de torta, de valsa e de chocolate. Vamos para o meu quarto.
- Já disse que não. E largue o meu joelho.
- Eu sei. Você acha que é melhor do que eu. Você…
- Olhe quem está passando! É Loos, o arquiteto!
- Dane-se Loos, o arquiteto. Danem-se todos eles. Vamos para o meu quarto.
- Isso é demais. Aqui estamos nós, numa tarde de verão, no centro da cidade mais maravilhosa do mundo, a cidade de Musil, de Hofmannsthal, de Schnitzler, de Wittgenstein, de Klimt, de Schiele, e você só pensa em ir para o seu quarto imundo. Aspire este ar. Sinta o perfume das vinhas do Wienervald.
- O cheiro que eu sinto é de decomposição.
- Que bobagem. O que está acontecendo em Viena é uma revolução no espírito humano. Nós vamos mudar a Europa. Nós, em Viena! Estamos no limiar de uma era como nunca houve igual. De paz, de prosperidade, de criatividade, de alegria de viver. Uma era…maravilhosa! E você desdenha tudo isso.
- Está bem. Esquece.
- Você precisa mudar de atitude.
- Está bem, está bem.
- Você fez o que eu pedi, fez?
- Não.
- Está vendo? Disse que faria qualquer coisa por mim, mas eu pedi para você ir ver o Dr. Freud, para o seu próprio bem, e você não foi. E não foi fácil marcar uma hora.
- Cheguei a ir até a porta, mas não entrei. Sei lá.
- Ele está fazendo coisas miraculosas. Mudaria você. E você não foi. Depois, ainda diz que me ama.
- Está bem. Marque outra hora que…
- Ouça! É o Danúbio Azul! Não, esta nós temos que dançar. Se você não dançar comigo, eu danço com o Kokoschka.
- Com quem?
- O Kokoschka. Um estudante de arte que eu conheço. Está sentado ali.
- Então vá dançar com o Kokoschka!
- Você ficou magoado?
- Vá. Ele também deve ser maravilhoso. Enquanto eu sou um pintorzinho de nada.
- Adolf…
- Vá, vá. Mas um dia vocês vão se arrepender. Ainda vão ouvir falar de mim.
Vocês todos ainda vão ouvir falar de mim!
Hahahahahaha!!!
Infelizmente, ainda não estamos salvos do fim do mundo.
Infelizmente, ainda existem mulheres que complicam tudo quando queremos apenas simplificar - hehehe.
Camilo
30 Mar 2007