Andando em círculos

Um pouco sobre tudo e muito sobre nada!

Sobre o autor

Eric é casado com Carol e pai do João Paulo. Músico, católico, fã de automobilismo e empresário. Trabalha em um portal de anúncio de veículos,

Um excelente conto do David Coimbra, da Zero Hora:

Mulheres grávidas

Mulher grávida é um troço assustador. Tem uma pessoa crescendo dentro da barriga dela. Selvagem. Animalesco. Compreensível que fiquem estranhas. Isso de desejo, por exemplo. A minha não tem tido muitos, salvo a necessidade imperiosa de comer uma granola do Lami no café da manhã, rúcula fresca colhida na hora durante o almoço, pizza margherita com muzzarella de búfala de Corrientes no jantar e manga cearense 10 minutos antes de dormir.

Mulher grávida só fala e só pensa em gravidez. Muito lógico. Eu, quando prensei meu dedo na porta do carro e o dedo inchou, só pensava e só falava no meu dedo. O mundo era o meu dedo, impressionava-me que as outras pessoas não estivessem se preocupando com meu dedo o dia inteiro. Uma gravidez é mais importante do que um dedo inchado, até porque de um dedo inchado não sai criança nenhuma. Assim, é natural a obsessão das grávidas.

Suponho que cada gravidez tenha sua peculiaridade. A da Marcinha, isto é, a da minha grávida, é que ela chora quando ouve uma música da Marisa Monte. Uma reação instantânea. Toca a música no rádio e ela buá. No começo aquilo me afligia, depois me acostumei. Dia desses, esperava por ela na frente de casa, ela vinha de carro. No momento em que dobrou a esquina, lá adiante, vi que cascateava em prantos. O carro parou. Abri a porta. Entrei. Coloquei o cinto. Perguntei:

- A música?

Ela, fungando:

- É.

E engatou a primeira.

Outro dia, notei que ela procurava um CD na estante. Procurava, procurava, até que encontrou. Marisa Monte. Eu:

- Não vai chorar…

Desistiu do CD. Botou o Nenhum de Nós. Devia estar louca para dar uma choradinha.

Nada disso me incomoda. Só me incomoda é que grávidas, certamente devido a alguma alteração hormonal, demoram mais para escolher o prato, quando no restaurante. Chega aquele cardápio do tamanho de uma lista telefônica e a Marcinha fica especulando. Precisa analisar todas as opções. Consultar o garçom:

- Como é que é o molho bechamel mesmo?

- Agnolini é aquela massa recheadinha?

E a pior de todas:

- Esse prato dá pra dois?

Trata-se de uma pergunta perigosa, porque às vezes a resposta é evasiva:

- Depende da fome…

Se depende da fome, torna-se necessário calcular a fome do outro comensal. No caso, eu. E aí vem mais uma rodada de questionamentos, qual a dimensão da minha fome, se me contento com um único bife, essas coisas. Se já seria agastante em condições normais, muito mais é se estou chegando a um restaurante, porque sempre que chego a um restaurante estou com fome e sempre que tenho fome fico irritado.

Que fazer? Desenvolvi um método, que agora, num serviço de utilidade pública, repasso a outros homens que, como eu, estejam em estado interessante. Basta aproveitar-se da lendária curiosidade feminina. Assim que o garçom aparece com o cardápio, diga, em tom de mistério:

- Aconteceu uma coisa terrível hoje…

Ela vai arregalar os olhos:

- Que é?

Ponha rápido um pãozinho do couvert na boca. Faça menção de que está prestes a falar, mas que não pode, está com a boca cheia, não se fala com a boca cheia. Ela vai ficar angustiada. Vai ficar perguntando o que é, o que é. Não responda. Quando terminar de engolir, beba um gole do chope, estale a língua e acrescente:

- Nunca pensei que ia acontecer uma coisa dessas.

- O que é? O que é???

Leve outro pãozinho à boca. Mastigue calmamente. Devagar. Bem devagar. Ela: que é? Que é??? Repita, meio mastigando:

- Pfoi… terrífel…

A essa altura, ela já largou o cardápio, o garçom está ao seu lado, e você:

- Filé a parmegiana, por favor.

Tente. Sempre funciona!

Um comentário para “ Mulheres grávidas ”

  1. Rárárárárá!!!
    Embora eu não frequente muito restaurante, vou guardar a dica.

    Camilo

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