Um excelente conto do David Coimbra, da Zero Hora:
Mulheres grávidas
Mulher grávida é um troço assustador. Tem uma pessoa crescendo dentro da barriga dela. Selvagem. Animalesco. Compreensível que fiquem estranhas. Isso de desejo, por exemplo. A minha não tem tido muitos, salvo a necessidade imperiosa de comer uma granola do Lami no café da manhã, rúcula fresca colhida na hora durante o almoço, pizza margherita com muzzarella de búfala de Corrientes no jantar e manga cearense 10 minutos antes de dormir.
Mulher grávida só fala e só pensa em gravidez. Muito lógico. Eu, quando prensei meu dedo na porta do carro e o dedo inchou, só pensava e só falava no meu dedo. O mundo era o meu dedo, impressionava-me que as outras pessoas não estivessem se preocupando com meu dedo o dia inteiro. Uma gravidez é mais importante do que um dedo inchado, até porque de um dedo inchado não sai criança nenhuma. Assim, é natural a obsessão das grávidas.
Suponho que cada gravidez tenha sua peculiaridade. A da Marcinha, isto é, a da minha grávida, é que ela chora quando ouve uma música da Marisa Monte. Uma reação instantânea. Toca a música no rádio e ela buá. No começo aquilo me afligia, depois me acostumei. Dia desses, esperava por ela na frente de casa, ela vinha de carro. No momento em que dobrou a esquina, lá adiante, vi que cascateava em prantos. O carro parou. Abri a porta. Entrei. Coloquei o cinto. Perguntei:
- A música?
Ela, fungando:
- É.
E engatou a primeira.
Outro dia, notei que ela procurava um CD na estante. Procurava, procurava, até que encontrou. Marisa Monte. Eu:
- Não vai chorar…
Desistiu do CD. Botou o Nenhum de Nós. Devia estar louca para dar uma choradinha.
Nada disso me incomoda. Só me incomoda é que grávidas, certamente devido a alguma alteração hormonal, demoram mais para escolher o prato, quando no restaurante. Chega aquele cardápio do tamanho de uma lista telefônica e a Marcinha fica especulando. Precisa analisar todas as opções. Consultar o garçom:
- Como é que é o molho bechamel mesmo?
- Agnolini é aquela massa recheadinha?
E a pior de todas:
- Esse prato dá pra dois?
Trata-se de uma pergunta perigosa, porque às vezes a resposta é evasiva:
- Depende da fome…
Se depende da fome, torna-se necessário calcular a fome do outro comensal. No caso, eu. E aí vem mais uma rodada de questionamentos, qual a dimensão da minha fome, se me contento com um único bife, essas coisas. Se já seria agastante em condições normais, muito mais é se estou chegando a um restaurante, porque sempre que chego a um restaurante estou com fome e sempre que tenho fome fico irritado.
Que fazer? Desenvolvi um método, que agora, num serviço de utilidade pública, repasso a outros homens que, como eu, estejam em estado interessante. Basta aproveitar-se da lendária curiosidade feminina. Assim que o garçom aparece com o cardápio, diga, em tom de mistério:
- Aconteceu uma coisa terrível hoje…
Ela vai arregalar os olhos:
- Que é?
Ponha rápido um pãozinho do couvert na boca. Faça menção de que está prestes a falar, mas que não pode, está com a boca cheia, não se fala com a boca cheia. Ela vai ficar angustiada. Vai ficar perguntando o que é, o que é. Não responda. Quando terminar de engolir, beba um gole do chope, estale a língua e acrescente:
- Nunca pensei que ia acontecer uma coisa dessas.
- O que é? O que é???
Leve outro pãozinho à boca. Mastigue calmamente. Devagar. Bem devagar. Ela: que é? Que é??? Repita, meio mastigando:
- Pfoi… terrífel…
A essa altura, ela já largou o cardápio, o garçom está ao seu lado, e você:
- Filé a parmegiana, por favor.
Tente. Sempre funciona!
Rárárárárá!!!
Embora eu não frequente muito restaurante, vou guardar a dica.
Camilo
20 Abr 2007